Felipe Martins
Do UOL, no Rio

Do UOL, no Rio
- Renata Brito/APManifestante é detido por policial militar durante confronto após protesto de professores no centro do Rio na noite de terça-feira (15)
A delegacia que concentrou o maior número de manifestantes detidos durante o protesto em apoio aos professores na noite de terça-feira (15) no centro do Rio de Janeiro, foi a 22ª DP (Penha), na zona norte: 49 pessoas foram liberadas na manhã desta quarta (16). Cerca de 20 km separam a delegacia da Cinelândia, no centro da cidade, palco de mais um confronto entre policiais militares e integrantes do grupo Black Bloc.
VEJA ONDE SÃO AS DELEGACIAS PARA ONDE FORAM LEVADOS OS MANIFESTANTES
Segundo a OAB, 204 foram detidos na noite de terça-feira e encaminhados para nove delegacias da capital. No entanto, nem todos ficaram presos.
Na 37ª DP (Engenho Novo), todos os 27 detidos ficarão presos. Na 5ª DP (Praça Mauá), três de 13 detidos foram presos. Na 12ª DP (Copacabana), seis (14 foram liberados); na 17ª DP (São Cristóvão), outros três presos, sendo 25 liberados. Já na 25ª DP (Engenho Novo), os 38 detidos aguardam parecer do delegado da unidade.
De acordo com informações da OAB (Ordem de Advogados do Brasil), pelo menos 39 dos manifestantes detidos foram enquadrados na Lei de Organização Criminosa (12.850/2013), em vigor desde 19 de setembro, e estão sendo levados para presídios. Outros 38 ainda estão em delegacias aguardando decisão de autoridades policiais.
A advogada Vivian Silva, do grupo Habeas Corpus, que presta auxílio jurídico a manifestantes, afirmou que em nenhum momento foi explicada a razão para a distribuição dos manifestantes em delegacias distantes do centro da cidade.
DETENÇÕES NO PROTESTO
| 5ª DP (Lapa) | 13 detidos | Dez liberados; três presos |
| 12ª DP (Copacabana) | 20 detidos | 14 liberados; seis presos |
| 17ª DP (São Cristóvão) | 28 detidos | 25 liberados; três presos |
| 19ª DP (Tijuca) | Seis detidos | Sem informação sobre liberados |
| 22ª DP (Penha) | 49 detidos | Todos liberados |
| 25ª DP (Engenho Novo) | 38 detidos | BOs ainda em andamento |
| 29ª DP (Madureira) | 29 detidos | Todos liberados |
| 37ª DP (Ilha do Governador) | 27 detidos | 27 presos |
"Não sabemos o porquê. A gente não tem nenhuma explicação sobre o motivo dessa pulverização. Eles [a polícia] têm que respeitar a circunscrição", afirmou. "Isso não tem nenhum amparo legal."
Para o especialista em segurança pública Ignácio Cano, do LAV (Laboratório de Análise de Violência) da UERJ (Universidade do Estado do Rio), a medida de levar os manifestantes para longe do centro tem caráter punitivo.
"Daqui a pouco estão levando para Nova Friburgo [município da região serrana] para fazer o registro. Isso se presta a atuações que seriam claramente punições, porque não havendo nenhuma norma nesse sentido, a polícia pode agir de qualquer forma para dificultar a volta para casa desses manifestantes. Além do mais, as delegacias demoram a registrar", disse. "É uma medida perigosa porque a polícia pode levar para onde quiser."
"Eu posso até entender a tentativa de afastar os manifestantes de lá naquele momento, mas o princípio é um pouco perigoso", completou o professor da UERJ.
Do total de detidos na delegacia da Penha, 17 são menores. Dos adultos, são 15 homens e 17 mulheres. Eles foram autuados pela polícia por formação de quadrilha ou bando. Segundo o delegado titular, Reginaldo Guilherme, o inquérito será encaminhado para a 5ª DP (Centro), que concentra as investigações. Todos os manifestantes foram liberados, ainda segundo o delegado, porque não houve o registro do flagrante.
Os manifestantes contam que ficaram nove horas dentro do ônibus da Polícia Militar desde o momento da prisão, por volta das 23h, até o momento de entrada na delegacia da Penha, às 8h. Antes de chegar à Penha, ainda segundo eles, foram levados à 25ª DP, que já estaria lotada de manifestantes vindos em outro ônibus.
A manifestante Gabriela Leoni, 31, afirma que os levados aos ônibus estavam concentrados na escadaria da Câmara de Vereadores quando ocorreu a prisão coletiva. "Naquele momento ninguém estava fazendo nada a não ser gritar palavras de ordem. De repente, a polícia começou a cercar a gente e do nada nos levaram presos. Tenho certeza que estava tudo premeditado por eles", afirmou a estudante, que diz ter sido atingida por estilhaços de bomba lançado pela PM. "Isso foi o que a PM fez em mim [mostrando o ferimento], a hostilidade e o terror psicológico."
Já o presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Breno Melaragno, disse acreditar que a medida adota pela polícia causa a impressão de que acontece para tornar mais difícil o trabalho de defesa dos advogados dos manifestantes.
"O que é de se estranhar é por que espalhar para tão distante, bairros como Ilha do Governador, Engenho Novo, Méier. Não haveria necessidade de levar para tão longe. Acaba parecendo que é para isolar os detidos da atuação de seus advogados e dos advogados que estão nas ruas com o apoio da OAB", afirmou. "Tecnicamente, a polícia pode fazer isso, mas não é nada razoável."
O UOL procurou a Polícia Militar para saber a razão do transporte dos manifestantes para delegacias distantes do centro do Rio, mas até o fechamento desta reportagem não houve resposta.
Estragos
A Prefeitura do Rio informou que funcionários da Secretaria de Conservação e Serviços Públicos fizeram uma vistoria na região afetada pelos atos dos black blocs na manhã desta quarta-feira e identificaram a destruição de três abrigos de ônibus, três relógios públicos e um totem comercial.
Também foram encontrados diversos pontos de calçamento de pedras portuguesas danificados ao longo da avenida Rio Branco e da rua Evaristo da Veiga. Na noite desta terça, reportagem do UOL presenciou manifestantes mascarados retirando pedras da calçada e atirando-as contra a polícia enquanto o Batalhão de Choque atirava bombas de gás lacrimogênio e de efeito moral. Algumas dessas pedras foram jogadas de volta pelos policiais em direção aos black blocs, na avenida Rio Branco.
A manifestação foi organizada por professores das redes municipal e estadual, contrários ao plano de cargos e salários proposto pela Prefeitura do Rio e aprovado pela Câmara dos Vereadores. De acordo com o sindicato dos professores, o protesto reuniu cerca de 10 mil pessoas.
O ato permaneceu pacífico até por volta de 20h15, quando representantes do sindicato anunciaram seu encerramento. A confusão começou no cruzamento da avenida Rio Branco com a rua Araújo de Porto Alegre, quando um grupo de mascarados caminhava da Câmara Municipal em direção à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
A polícia usou grande quantidade de bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral contra os manifestantes, que atiraram morteiros, rojões, pedaços de madeira e pedras contra os PMs da Tropa de Choque.
Em São Paulo, manifestantes foram reprimidos pela Polícia Militar quando ocuparam todas as faixas da pista sentido Interlagos da marginal Pinheiros. A Tropa de Choque da PM usou bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. De acordo com a PM, quatro policiais ficaram feridos e 56 pessoas foram detidas.
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