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Incompetência, desinformação e boa dose de descaso temperam a escalada meteórica da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que domina 90% dos presídios de São Paulo, chefia o tráfico de drogas da região, as ações de bandidos nas ruas e, agora, começa a se ramificar em ritmo acelerado para o resto do Brasil.
Esse retrato, pintado em suas diversas cores e matizes, tem deixado os brasileiros perplexos, realmente espantados com as dimensões alcançadas pela organização fundada em 31 de agosto de 1993 por oito presidiários e que, atualmente, congrega 11.182 mil membros, sendo 68% deles oriundos de São Paulo e 53,6% trancafiados em presídios e casas de detenção pelo país.
Tamanha contabilidade foi possível graças à uma investigação histórica do Ministério Público (MP) paulista divulgada à conta-gotas para os veículos locais de imprensa. Ao longo de três anos e meio a instituição mapeou o que chamou de raio X do PCC e, agora, começa a vazar parte desse relatório para a opinião pública, alimentando o noticiário com frequência diária de revelações escabrosas, como os planos dos criminosos em assassinar o governador Geraldo Alckmin, a intenção de realizar ações durante a Copa do Mundo ou o fato de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, o chefão do PCC, creditar à sua liderança a redução da criminalidade no estado.
"O PCC é uma realidade que tem de ser enfrentada", disse o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, assim que tomou ciência do relatório, que identificou a presença da organização em nada menos do que 22 estados do país e em dois países vizinhos (Bolívia e Paraguai). Embora óbvia, há de se destacar que a declaração soa atrasada, principalmente para um governo que há pouco tempo comemorava êxito na tarefa de desarticular o partido criminoso, sufocando-o financeiramente.
Como se vê agora, o PCC não parece com problemas de caixa. Ao contrário. Segundo revelou o MP, a organização está sentada sobre um faturamento anual de US$ 55 milhões, o que a colocaria entre as 1.150 maiores empresas do Brasil. Esse montante, diga-se de passagem, não inclui os negócios particulares dos integrantes, o que poderia dobrar o valor total das cifras.
O que também causou frisson, embora ai o espanto tenha sido em menor escala, foi a afirmação do MP de que policiais e advogados operam uma especie de retaguarda para o trabalho do PCC no Brasil. Como de praxe, quando atingido por uma história de clamor público, o governo se demonstrou disposto a dar uma resposta imediata. Há um ano das eleições, Alckmin anunciou a criação de uma "força-tarefa 24 horas no ar" para apurar o envolvimento principalmente dos agentes de segurança com os criminosos. "Queria trazer uma tranquilidade para a população, dizendo do esforço que está sendo feito pela polícia e que todas as medidas estão sendo tomadas", disse o governador.
Cerca de 24 horas depois, um tenente da Polícia Militar de 36 anos foi detido administrativamente pela corregedoria do órgão. Como alegação, afirmou-se que as escutas telefônicas feitas pelo MP em celulares de presos ligavam o tenente à facção de bandidos.
No campo federal, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, aproveitou a ocasião para demonstrar sua consternação com toda essa história. Ele classificou a atuação e a dimensão do PCC de "inaceitável". "É inaceitável que o crime organizado tome essa dimensão, não só no Brasil, mas em vários países do mundo", afirmou. Pelo jeito, ele também não sabia de nada.
Os fatos citados e as opiniões expressos são de responsabilidade do autor.
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