Tuesday, October 15, 2013

Em entrevista à JUNIOR, Datena defende criminalização da Homofobia e não poupa palavras

Datena é polêmico e não mede palavras, inclusive para defender os gays na entrevista a seguir


Datena: acho que não se deve misturar religião com nada
Desde que passou a comandar o policialesco “Cidade Alerta”, na Rede Record, no final dos anos 90, o jornalista, apresentador de TV e locutor esportivo José Luiz Datena se tornou umas figuras mais icônicas e polêmicas da televisão brasileira. Homem de personalidade forte, sem medir palavras, e hoje à frente do “Brasil Urgente”, na Band, ele já se envolveu em uma briga judicial com a antiga emissora por questões contratuais, angariou uma legião de admiradores com seu jeito incisivo e colecionou um sem fim de desafetos.

Aos 56 anos de idade, ele já se mostra mais ponderado e se esquiva de temas polêmicos, mas nem por isso perde a acidez e o senso crítico diante de assuntos espinhosos. Em entrevista à JUNIOR horas antes do “Brasil Urgente” ir ao ar, ele comenta o momento de crise no Brasil, alega que foi “mal interpretado” em mais de uma ocasião e defende a aprovação da lei que criminaliza a homofobia.

A recente onda de protestos que se espalhou pelo País colocou em pauta uma série de reivindicações. Como comunicador, qual reivindicação você considera mais urgente diante do que vem sendo apresentado?O cardápio é variado. São tantas as necessidades que ficaram represadas pela ineficácia da máquina política que hoje passa pela Educação, pela Saúde, até as mais variadas reivindicações. A gente tem que tomar cuidado para não generalizar e saber atender às maiores necessidades dos brasileiros que são obviamente muito claras. A gente vive numa confusão e numa mistura perigosa de um país rico, que é a sexta economia do mundo, e um povo pobre, com uma série de necessidades. O elenco é muito grande. Penso que, prioritariamente, a Saúde é uma delas. Educação, e por aí vai.

O deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) já deu algumas declarações polêmicas envolvendo negros e homossexuais. O que você acha desta mistura de religião e política? De temas relevantes sendo pontuados por convicções religiosas?Acho que não se deve misturar religião com absolutamente nada. Eu fui erroneamente processado por ateus porque usei uma frase que há séculos se usa. Um cara que tinha cometido um crime não tinha Deus no coração. Isso minha avó já falava, o meu bisavô. É uma frase milenar. A religião deve ser respeitada. Eu, por exemplo, acredito em Deus. Sou católico e defendo a minha crença em Deus, e respeito quem não acredita. Misturar religião com qualquer tipo de segmento social ou com qualquer posição que você deva tomar em relação à sociedade é errado.

Uma de suas características mais marcantes é a personalidade forte. Você fala o que pensa e suas declarações costumam repercutir bastante, e nem sempre elas soam bem. Você se considera preconceituoso? Ou as pessoas não entendem bem o que você fala?Falo o que eu penso. Se o que eu penso fere alguém, eu até peço desculpas em algumas ocasiões. Não peço emprestado o que eu falo. Sai do meu coração, do que aprendi e convivi durante a vida inteira. Tenho 56 anos de idade. De repente, amanhã, eu posso ser de uma posição que hoje eu não tenha. O minuto que acabou agora eu já vivi. Não interessa mais. Interessa o que vai vir daqui pra frente. Acho que a vida só vai moldando as pessoas. Posso ser intransigente hoje, mas amanhã eu posso mudar de opinião a partir do momento em que me apresentem um argumento que me faça mudar. Não por interesse pessoal, nem por nada, mas porque eu tenho as minhas opiniões e é assim que tem que ser. Você tem que respeitar as individualidades das outras pessoas, mas ter a sua opinião.

Você já se arrependeu de muita coisa que falou no ar?Já me arrependi muito, de muitas coisas que eu falei. Não me lembro de todas elas, e nem me lembro de uma específica. Se alguém me mostrar, me der argumentos de que eu errei, eu posso rever.

Além do episódio dos ateus, outro momento polêmico foi quando a Defensoria Pública de São Paulo considerou uma ofensa a maneira como você se referiu a uma travesti. Foi mais um caso em que você foi mal interpretado?Fui super mal interpretado. Era um travesti que estava batendo numa pessoa, agredindo uma pessoa. Não julguei o travesti. Julguei o cara que estava batendo em outra pessoa. Aliás, apenas emiti o meu conceito. Acho errado alguém espancar outra pessoa, qualquer que seja. Homossexual, heterossexual, bissexual, tanto faz. Ali não estava dirigindo a minha crítica à opção sexual de uma pessoa, e sim ao espancamento.

Você acredita que, tal como o racismo, a homofobia deve ser criminalizada?A questão de criminalizar alguma coisa é muito relativa. É crime, claro, quando alguém agride alguém pela opção que ela tem. Isso eu tenho mostrado, denunciado, até com muita veemência, não só contra homossexuais, mas contra qualquer pessoa. Não só contra o sujeito que é rico, mas contra o morador de rua. Qualquer agressão é execrável e toda opção tem que ser respeitada. Se não se fizer respeitar por convenção, que se faça respeitar através de lei. Que as leis sejam específicas para impedir que minorias sejam espancadas por uma opção. Acho que grande parte dessa maioria tem que defender as minorias, senão você não consegue salvar nem a maioria nem a minoria. A partir do momento em que a condição de ser humano te leva a agredir uma pessoa porque ela é homossexual, então tem que transformar isso em lei e quem agredir tem que ser responsabilizado por isso. Se o sujeito agredir alguém por isso, tem que ser criminalizado, ele precisa ser penalizado e colocado na cadeia.

Agressões a homossexuais vêm sendo noticiadas com cada vez mais frequência. Você enxerga uma onda crescente de violência contra gays ou é o noticiário que vem dando mais atenção ao tema?Uma coisa e outra. As notícias apresentam a violência que está aí. Não é a violência contra gay que está crescendo, é a violência geral. A violência de um cara que dá um tiro na cabeça de um menino, de um sujeito que queima uma mulher. A violência, de uma forma geral, está se espalhando pelo País. As pessoas falam: “o seu programa é muito violento”. Evidente que é. A sociedade está muito violenta. E está claro agora com essas manifestações que a questão da segurança pública é uma das pautas recorrentes deste povo que está nas ruas, pedindo a preservação do seu direito de ir e vir, tanto faz se o sujeito é homossexual ou não. Não gosto de segmentar causas porque a partir do momento que você segmenta, está sendo preconceituoso também.

Em mais de uma ocasião, você já manifestou o seu desejo de parar de apresentar o “Brasil Urgente” e se dedicar a novos projetos na TV. Isso já tem data para acontecer?Não sei se tem, mas ainda continuo desejando. Espero muito que eu tenha oportunidade de fazer outro tipo de programa, como já fiz durante muito tempo, e que possa realizar o meu trabalho numa coisa mais prazerosa. Não é prazeroso ficar, infelizmente, mostrando a realidade triste que a gente vive no Brasil. Quero fazer um programa de entrevistas, um talk show, ou algo nesse sentido. “Quem Fica em Pé” deve voltar em setembro. É um programa de variedades que deu certo e foi super bacana.

Os médicos já pediram para você deixar o programa por conta de sua saúde?Me pediram para tirar um pouco o pé. Mas acho que é porque eu trabalho demais. Não só porque o assunto é pesado, mas porque trabalho muito. Trabalho de segunda a sábado, e de vez em quando faço alguma coisa no domingo. Gostaria de ter tempo livre para fazer alguma coisa, mas por enquanto não estou tendo. Quando tenho, gosto de ficar em casa com a família.
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